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Feijão sem tempero

Dirijo devagar e pra longe. As pessoas refletem sobre a vida nos momentos mais corriqueiros. Enquanto se banham, lavam a louça ou caminham pra buscar um filho no colégio. Eu o faço quando dirijo. E tenho dirigido cada vez mais devagar, cada vez mais longe.

Feliz ano novo, infeliz relacionamento velho. Novo, velho… Porra, que contraposição pobre. Ando tão desempolgado com minha vida amorosa; até meus pensamentos são clichês prontos, sem criatividade. Dizem que tenho uma boa esposa, que sou bem casado. Sei lá… É bom. Isso: bom. Igual a um feijão sem tempero. Jamais será um feijão ótimo, excepcional, extraordinário.

Meu casamento é um feijão sem tempero. E parece ter perecido.

O problema da vida amorosa cômoda é que ela se camufla em tudo na sua vida e vai se escondendo cada vez mais e mais e mais, até o ponto de você se achar infeliz em todos os campos, por mais que não seja verdade. Falta de intensidade contamina tudo.

Dizemos Te amo!, mas no fundo sabemos ser um amor conveniente. Eu e Inez achamos que nos encontraríamos após termos perdido nossos iguais. Então cremos nessa coisa piégas de dois corações partidos se juntarem. Percebo agora que isso só é possível se eles não estivessem estilhaçados. Coração estilhaçado é coração mal-resolvido, que está assim por falta de autoperdão ou de perdoar. Remorso pra eternidade.

Se eu e Inês tivéssemos perdoado nossos ex-amores, estaríamos casados? Estaríamos felizes? Os ciclos se fechariam? E os bons momentos vividos? E os maus momentos que, bem ou mal, nos fizeram evoluir? Às vezes acho que nos casamos mais pelo facho de esperança e singularidade do romance aparente, do que pelo sentimento verdadeiro. Ou subjetivamente queríamos dar o troco por minha noiva me trair com o noivo dela?

Que viagem… Me lembro agora  daquele filme do Hector Babenco, que falava dessa história de ciclos que não se fecham, fluxos que não fluem, que enquanto isso não acontece, a energia pesada não cessa. É como uma conta pendente com o universo. E um dos dois precisa tanto desse acerto, que acaba empatando a vida de ambos e de até mesmo outras pessoas à sua volta. Igual na minha história com a Nara, uma ex-namorada. A coitada havia me traído e perdoei a infidelidade – mais por eu também ter sido infiel do que qualquer outra coisa. O namoro acabou, mas ela me procurou e atazanou minha vida até eu perdoá-la verdadeiramente. Após isso, parece que se casou. Agora vem a verdade do filme querendo fechar com meus destinos novamente. Talvez seja porque findei o ciclo dela e de tantos outros amores, mas não o meu. Fui sincero quando disse que a perdoava, mas não sei se o fiz pra mim. Tenho mágoas, um ciclo que ainda não se fechou. Enquanto isso, minha ficha da covardia insiste em não cair, empurrando o relacionamento com a barriga e deixando pra Inês uma decisão que deve ser minha. Ou ela também está se acovardando?

Enfim. Acho que parei de guiar minha vida e a deixei me levar. Zeca Pagodinho, seu grande filho da puta.

Após quase duas horas dirigindo sem rumo na cidade, cheguei a casa. Pronto, voltarei a fingir que como o famoso feijão da Vicentina. Só que Inez não estava em casa. Nem suas roupas e sapatos no closet. As joias também não. Tinha um bilhete na cama. Amassei sem ler. O telefone tocou minutos depois e era Inez. Não atendi. Chegou uma SMS dela em seguida, me perguntando se eu estava bem. Não respondi e não responderei. Mais um ciclo se acaba, mais um ciclo não se fecha. Fui à geladeira, abri uma Heineken gelada, sentei no sofá e dei um longo gole. Sorri.

*Texto publicado originalmente no ExtraOrdinários.

Colunista de hoje:

Fernando Ramos – Papai do Caio, publicitário, pisciano, chocólatra e bem-humorado, safo quando o Vasco perde. Nas horas vagas é escritor, conselheiro amoroso, cavaquinhista de araque, viciado em internet e videogame. Além do site oficial, divulgo meus escritos em meu perfil @fernandoramosdf no twitter e em minha fan page facebook.com/autorfernandoramos.

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